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Raiva, hostilidade e infarto

  • Foto do escritor: Géssica Magalhães
    Géssica Magalhães
  • 18 de out. de 2025
  • 4 min de leitura

Raiva, Hostilidade e Infarto: O Preço Biológico das Emoções Não Resolvidas

A raiva é uma emoção humana natural. Assim como a tristeza e o medo, ela tem uma função adaptativa: nos proteger, nos alertar e até nos impulsionar. No entanto, quando se torna constante, explosiva ou reprimida de forma crônica, essa emoção deixa de ser um sinal de alerta e passa a ser um agente silencioso de agressão ao coração.

Pesquisas científicas recentes apontam uma conexão direta entre raiva, hostilidade e eventos cardiovasculares agudos, como o infarto do miocárdio. Trata-se de uma relação que ultrapassa a esfera psicológica e se consolida como um fenômeno biológico, mensurável e perigoso.


O Perfil Hostil: muito além de um traço de personalidade

O chamado “perfil hostil” é caracterizado por:

  • Irritabilidade frequente;

  • Cinismo;

  • Impaciência crônica;

  • Ressentimento;

  • Comportamento defensivo ou agressivo.


Pessoas com esse perfil tendem a experimentar surtos frequentes de raiva mal administrada, com baixa tolerância à frustração e tendência a conflitos interpessoais.

Estudos populacionais, como o Western Collaborative Group Study, acompanharam milhares de pessoas por décadas e concluíram que indivíduos com altos índices de hostilidade têm risco significativamente maior de desenvolver doenças cardiovasculares.


Raiva e infarto: o que diz a fisiologia?

A raiva intensa, especialmente quando recorrente, ativa o sistema nervoso simpático de forma aguda. Isso provoca:

  • Aumento súbito da pressão arterial;

  • Taquicardia;

  • Vasoconstrição periférica;

  • Liberação massiva de adrenalina e noradrenalina;

  • Aumento da viscosidade sanguínea e da agregação plaquetária;

  • Elevação dos níveis de cortisol e marcadores inflamatórios.


Esse conjunto de respostas cria um ambiente ideal para a ruptura de placas ateroscleróticas, trombose e consequente infarto do miocárdio. Segundo a AHA, episódios de raiva intensa aumentam o risco de infarto em até 5 vezes nas duas horas subsequentes ao surto emocional.


A hostilidade como fator de risco cardiovascular

A hostilidade crônica é considerada hoje um fator de risco não tradicional, mas relevante, para doenças cardiovasculares. Trata-se de um componente de personalidade que se manifesta de forma prolongada, afetando o corpo em diferentes níveis.

A ESC e a AHA reconhecem que emoções negativas persistentes, como raiva e ressentimento, favorecem o desenvolvimento de:

  • Hipertensão arterial resistente;

  • Dislipidemias;

  • Síndrome metabólica;

  • Doença arterial coronariana precoce.

Além disso, o perfil hostil está associado a baixa adesão ao tratamento médico, menor participação em programas de reabilitação cardíaca e pior prognóstico após eventos agudos.


Raiva reprimida: outro risco invisível

Importante destacar que não apenas a raiva expressa de forma explosiva é prejudicial. A raiva reprimida, engolida e não processada emocionalmente, também representa risco.

Pessoas que “guardam para si” tendem a manter níveis elevados de tensão basal, o que gera ativação crônica do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, levando a um estado de estresse fisiológico contínuo. O resultado? Aumento de cortisol, inflamação sistêmica e sobrecarga no sistema cardiovascular.

A APA alerta que o manejo inadequado da raiva, seja por externalização impulsiva ou internalização tóxica, está associado a maior prevalência de transtornos ansiosos, depressivos e doenças cardíacas.


Raiva, impulsividade e saúde mental

A raiva mal controlada está fortemente ligada à impulsividade, baixa regulação emocional e padrões disfuncionais de comportamento. Não é raro que ela coexista com:

  • Transtorno de personalidade borderline ou antissocial;

  • Transtornos por uso de substâncias;

  • Ansiedade generalizada e depressão maior;

  • Transtorno de estresse pós-traumático (TEPT).


Esses quadros, por sua vez, amplificam o risco cardiovascular, criando um ciclo de retroalimentação entre emoções desreguladas e lesões orgânicas silenciosas.


Marcadores biológicos da hostilidade crônica

Pessoas com altos níveis de raiva e hostilidade persistente apresentam elevação de biomarcadores inflamatórios, como:

  • Proteína C reativa ultrassensível (PCR-us);

  • Interleucina-6 (IL-6);

  • Fator de necrose tumoral alfa (TNF-α);

  • Disfunção endotelial precoce.


Essas substâncias estão diretamente associadas ao surgimento e progressão da aterosclerose, principal causa de infarto e AVC.


Como manejar a raiva e proteger o coração

A raiva não precisa ser eliminada, mas canalizada com consciência e responsabilidade emocional. Para isso, algumas estratégias mostram-se eficazes:


1. Psicoterapia com foco em regulação emocional

  • Abordagens como Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), Terapia do Esquema e mindfulness ajudam a identificar gatilhos e promover respostas adaptativas.


2. Técnicas de respiração e relaxamento

  • Exercícios vagais, respiração diafragmática e práticas de coerência cardíaca reduzem a reatividade simpática.


3. Atividade física regular

  • Promove liberação de endorfinas, regula o humor e reduz níveis de cortisol e tensão muscular.


4. Educação emocional

  • Aprender a nomear sentimentos, reconhecer os sinais corporais da raiva e comunicar-se de forma assertiva é parte da construção de resiliência emocional.


5. Evitar gatilhos comportamentais

  • Redução do consumo de álcool, cafeína, tabaco e excesso de estímulos digitais pode ajudar a manter o sistema nervoso em estado de equilíbrio.


Conclusão: O coração sente o que a mente cala ou explode

A saúde mental não é um apêndice da medicina, é um pilar. Emoções como raiva e hostilidade não tratadas são tão perigosas quanto hipertensão, tabagismo ou diabetes. Elas adoecem lentamente o coração, silenciosamente.

Cuidar do coração exige escutar a mente. Processar a raiva é, acima de tudo, um ato de autocuidado e proteção da vida.


Em resumo:

  • A raiva crônica e a hostilidade aumentam o risco de infarto, hipertensão e mortalidade cardiovascular;

  • Ambas promovem alterações hormonais, inflamatórias e comportamentais que sobrecarregam o sistema cardiovascular;

  • A saúde mental precisa ser integrada ao cuidado com o coração, especialmente em pacientes com perfil emocional reativo;

  • O manejo da raiva passa por psicoterapia, técnicas de regulação autonômica e mudanças no estilo de vida;

  • O coração responde aos sentimentos, mesmo os não expressos, por isso, acolher as emoções é também proteger a vida.


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© 2019 por Dra Géssica Magalhães. 

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