Trabalhar no turno da noite pode comprometer a sua saúde cardíaca
- Géssica Magalhães
- 1 de out. de 2024
- 5 min de leitura
Atualizado: 18 de out. de 2025
A privação de sono é um problema crescente, especialmente entre profissionais que trabalham em turnos noturnos. Médicos, enfermeiros, vigilantes, motoristas e outros trabalhadores noturnos muitas vezes enfrentam desafios únicos para equilibrar suas necessidades de descanso com as exigências de suas carreiras.

A privação de sono vai além do cansaço físico; seus efeitos podem impactar diretamente a saúde cardiovascular, o metabolismo e o bem-estar geral. Entender os riscos e as formas de mitigar os impactos desse estilo de vida é essencial para preservar a saúde e a qualidade de vida desses profissionais.
Impacto no ritmo circadiano
O corpo humano possui um relógio biológico interno, conhecido como ritmo circadiano, que regula o ciclo de sono e vigília. Esse ritmo é naturalmente sincronizado com os padrões de luz e escuridão do ambiente. Profissionais que trabalham à noite sofrem uma disrupção desse ciclo, forçando o corpo a ficar desperto quando naturalmente deveria estar descansando.
A quebra desse ritmo circadiano pode causar uma série de efeitos adversos, como alterações no humor, dificuldade de concentração e, a longo prazo, problemas metabólicos e cardiovasculares. O organismo fica desorientado, e os sinais que regulam o sono e outros processos biológicos são comprometidos, tornando mais difícil para o corpo se recuperar e funcionar de maneira otimizada.
Efeitos sobre a saúde cardiovascular
Trabalhar em turnos noturnos e a consequente privação de sono aumentam significativamente o risco de doenças cardiovasculares. A privação de sono afeta o sistema nervoso autônomo, elevando os níveis de cortisol e adrenalina, hormônios associados ao estresse. Essas substâncias mantêm o corpo em estado de alerta, elevando a pressão arterial e sobrecarregando o coração.
Estudos indicam que profissionais que trabalham em turnos noturnos têm maior probabilidade de desenvolver hipertensão, arritmias e aterosclerose. O aumento da pressão arterial durante o sono, conhecido como "non-dipping", é uma característica comum entre trabalhadores noturnos e está relacionado a um risco mais elevado de infartos e AVCs.
Além disso, a privação de sono afeta a função endotelial, que é essencial para a saúde dos vasos sanguíneos. O endotélio é responsável por regular a dilatação dos vasos, e o sono inadequado prejudica essa função, aumentando o risco de rigidez arterial e outros problemas relacionados ao sistema cardiovascular.
Alterações metabólicas e ganho de peso
A privação de sono também exerce um impacto negativo sobre o metabolismo, levando ao aumento de peso e ao desenvolvimento de condições como a resistência à insulina e o diabetes tipo 2. Quando o corpo não descansa o suficiente, ocorrem alterações nos hormônios que regulam o apetite, como a leptina e a grelina. A leptina, responsável por sinalizar saciedade, diminui, enquanto a grelina, que estimula a fome, aumenta. Isso resulta em um aumento do apetite, especialmente por alimentos ricos em carboidratos e gorduras.
Além disso, o cansaço gerado pela falta de sono pode levar a uma redução na prática de atividades físicas, o que contribui para o ganho de peso. Trabalhadores noturnos muitas vezes acabam se alimentando de maneira inadequada durante o turno e têm maior dificuldade em manter uma rotina saudável de exercícios, o que potencializa os efeitos negativos da privação de sono sobre o metabolismo.
Efeitos cognitivos e psicológicos
A privação de sono tem um impacto direto na função cognitiva e no bem-estar psicológico. Profissionais que trabalham à noite frequentemente relatam problemas como dificuldade de concentração, lapsos de memória e redução da capacidade de tomada de decisões. Esses efeitos são particularmente preocupantes em profissões que exigem alta precisão, como medicina, enfermagem e transporte, onde erros podem ter consequências graves.
A falta de sono também está associada a um aumento nos níveis de estresse, ansiedade e depressão. Trabalhar à noite pode isolar o indivíduo de eventos sociais e familiares, exacerbando sentimentos de solidão e afetando negativamente a saúde mental. A longo prazo, essa combinação de privação de sono e estresse psicológico pode levar ao esgotamento profissional, ou *burnout*, uma condição grave que afeta a qualidade de vida e o desempenho no trabalho.
Apneia do sono e profissionais de jornada noturna
A apneia obstrutiva do sono é um distúrbio comum entre trabalhadores noturnos, especialmente aqueles que sofrem de privação crônica de sono. A apneia do sono é caracterizada por interrupções repetidas na respiração durante o sono, o que leva a quedas nos níveis de oxigênio no sangue e despertares frequentes. Essa condição afeta diretamente a saúde cardiovascular, elevando o risco de hipertensão, insuficiência cardíaca e arritmias.
Profissionais que trabalham à noite têm maior probabilidade de desenvolver ou agravar a apneia do sono devido à má qualidade do descanso durante o dia. O ambiente de sono diurno é frequentemente interrompido por ruídos, luzes e outras distrações, o que impede que o corpo alcance o sono profundo necessário para a recuperação. O tratamento da apneia, muitas vezes com o uso de dispositivos CPAP, pode ser uma solução eficaz para melhorar a qualidade do sono e reduzir os riscos cardiovasculares.
Estratégias para mitigar os efeitos da privação de sono
Embora trabalhar à noite seja uma realidade para muitos, existem maneiras de reduzir os impactos negativos da privação de sono sobre a saúde. Algumas estratégias podem ajudar a melhorar a qualidade do descanso e minimizar os riscos cardiovasculares e metabólicos:
1. Estabeleça uma rotina de sono consistente: Mesmo trabalhando em turnos noturnos, é importante tentar manter um horário regular de sono durante o dia. Isso ajuda o corpo a se adaptar e a regular o ciclo de sono-vigília.
2. Crie um ambiente de sono adequado: O quarto deve ser o mais escuro e silencioso possível. O uso de cortinas blackout e protetores auriculares pode ajudar a minimizar as interrupções causadas pela luz e pelo barulho externo.
3. Limite o consumo de cafeína e estimulantes: Embora o café possa ajudar a manter a vigília durante o turno, seu consumo excessivo pode prejudicar o sono após o trabalho. Evite cafeína e outros estimulantes nas horas que antecedem o momento de dormir.
4. Mantenha uma alimentação equilibrada: Planeje as refeições para evitar lanches pouco saudáveis durante o turno. Priorize alimentos ricos em fibras, proteínas magras e gorduras saudáveis, que fornecem energia sustentada e ajudam a evitar os picos de fome.
5. Pratique atividades físicas: A prática regular de exercícios físicos é uma maneira eficaz de melhorar a qualidade do sono e combater os efeitos do sedentarismo. No entanto, evite exercícios intensos logo antes de dormir, pois eles podem dificultar o relaxamento.
6. Busque apoio médico para distúrbios do sono: Se houver suspeita de apneia do sono ou outros distúrbios, é fundamental procurar um especialista. O tratamento adequado pode melhorar significativamente a qualidade do descanso e reduzir os riscos para a saúde.
Conclusão



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